quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Outubro rosa


Quando eu era criança vi um filme americano chamado “Onde Estavas Quando as Luzes se Apagaram”. Não lembro de tê-lo visto mais de uma vez. Mas entrou no rol das minhas películas favoritas. Era uma comédia muito divertida sobre um blecaute.
A história termina numa maternidade nove meses depois com dezenas de crianças nascendo. Ou seja, ninguém ficou de bobeira durante a escuridão.

No Brasil se existe época onde a galera definitivamente não fica de bobeira é o carnaval. Sempre que alguém revela que nasceu em novembro já vem a mente: “Mais um filho do Carnaval”.

Na minha família as coisas esquentam definitivamente em janeiro. O início do ano é um tempo repleto de “amor” entre os casais. O resultado são nascimentos, muitos nascimentos, nove meses depois.

Em outubro meu pequeno bolso fica ainda menor. Haja grana pra comprar presente. Tem de tudo: pai, tia, sobrinha, afilhada...
Nenhum dos meus avós nasceu em outubro. Mas a partir daí foi deflagrada uma nova lei entre meus ancestrais: janeiro vem aí e o bicho vai pegar!

Meus avós maternos tentaram, mas não conseguiram. Na real, inverteram os papéis, pois a minha mãe nasceu no dia primeiro de janeiro – sim, a pobrezinha nunca teve uma festa de aniversário -, e o meu tio chegou no mundo em fevereiro.
Mas para não ficarem fora da moda, praticamente criaram uma sobrinha, a Neiva, mais conhecida como Tita na família. Ela botou o bloco na rua no dia sete de outubro.

A Tita era minha “inimiga” na infância. Ela adorava cinema e ficava até altas madrugadas vendo filmes em preto e branco na tevê. Terminava a maratona encarando séries como Tarzan. E pq minha inimiga. Simples: apesar da pouca idade, tinha, no máximo, dez anos, eu encarava filmes atrás de filmes até o sol raiar. Adoro filmes, mas a maior motivação consistia em bater recorde da Tita. A gente brincava um monte quanto a isso.

A Tita também faz um bolo de pudim inesquecível. Viajar até Pelotas significava comor o melhor bolo de pudim do Planeta Terra, o bolo de pudim da Tita. Na minha infância a gente vivia na cidade circundada pelo São Gonçalo, pois morávamos em Rio Grande. Bem pertinho.

Faz mais de vinte anos que eu não como o bolo de pudim da Tita, mas duvido que já tenham feito um melhor.

Do outro lado, meus pais paternos caprichavam durante o mês de janeiro. Minha avó colocou três dos cinco filhos no Mundo em outubro.

A Renata nasceu no dia 16 de outubro. Minha tia mais velha, ela pode-se orgulhar de um feito: entrou na Universidade Federal do Rio Grande do Sul várias vezes seguida. A última no ano passado. Passou no vestibular para Designer ( ou outro curso semelhante), ao lado da filha de 17 anos que ingressou no curso de Matemática.

Sempre de bom humor, quer acertar as contas com o passado e tirar só A no curso. Por enquanto a missão está sendo cumprida com sucesso.

A Renata veio morar em Porto Alegre no final dos anos 70, no apartamento que eu habito hoje. Eclética, adora fotografia, cinema, teatro e o Ney Matogrosso. A Renata tem um dom: cozinha muito bem. Seus doces e salgados são famosos na família.

No dia 11 de outubro nasceu a Gilberta (Gica para os íntimos), a mais nova dos cinco filhas da minha avó paterna.

A Gica é um furacão em pessoa. Intensa, botava o Voltaire abaixo poguiando ao som do punk rock. A nossa pouca diferença de idade, apenas cinco anos, fez da nossa relação um jogo de amor e ódio. Eu amava odiar a Gica na minha infância. Implicava direto com ela. Ou seja, apanhei muito, mas também honrei a minha fama de papa léguas e consegui escapar ileso de várias perseguições. Era muita adrenalina.

A Gica se destaca na minha família pela obstinação. Nunca se deitou em berço esplêndido. Sempre procurou ascender economicamente e intelectualmente. Mesmo formada em história e dona de uma locadora na Cidade Baixa, não se aquietou. Passou para biblioteconomia na UFRGS em 2013, mesma universidade onde completou o primeiro curso.

Para encerrar o mês de outubro entre os meus ancestrais, falta falar do meu Pai. O “Seu Cadica” nasceu no dia 11 de outubro de 1955. Do meu pai herdei alguns traços genéticos (infelizmente não a altura, pois ele tem 1,80 e eu sou um anão) como as entradas, os gestos e muitas paixões, a maior delas o Grêmio.

Eu sempre brinco com os meus amigos. “Uma vez eu disse pro meu pai que o Grêmio era a coisa mais importante na minha vida. Ele deu dois passos na minha direção. Me abraçou e disparou: ‘nunca duvidei disso. Que orgulho’”. Claro que é uma piada, mas só reforça a importância do time de Lara e Luis Carvalho nas nossas vidas.

Meus pais sempre nos colocaram acima de tudo. Entretanto, eu a minha irmã não fomos criados num ambiente mimado. Desde criança tínhamos tarefas leves para colaborar na casa.

Da minha infância carrego várias coisas legais, algumas mais legais que as outras. Não me vem na mente viagens alucinantes ou dias inesquecíveis. São outras memórias.

Uma vez no Aldo Dapuzzo (estádio do São Paulo de Rio Grande), devia ter uns dez oito anos, e entrei na onda da torcida do time de casa que furiosa gritava olé contra a equipe de Rio Grande que tomava uma socada do adversário. Meu pai pegou meu braço, levemente, e me levantou da arquibancada. “Vamos embora. Não te trouxe aqui pra fazer isso”. Lição aprendida. Nunca gritei olé ou vaie meu time de coração.

Eles faziam o rancho semanal no super toda a sexta-feira. Vivíamos sem excessos. Os dois trabalhavam como professores estaduais e batalhavam cada centavo. Mas qual fosse a situação financeira, nunca, eu escrevi nunca, faltavam os agrados. O agrado atendia pelo nome de bolachinha recheada (ok, não era o mais recomendado para duas crianças, mas os tempos eram outros).
A pujança econômica era traduzida em dois pacotes pra cada um na semana. A estabilidade significa um pra mim e outro pra minha irmã, a Flávia. Quando as coisas não iam bem, um pacote apenas para os dois. Sete bolachinhas, divididas de forma salomônica. Mas elas estavam sempre lá em menor ou maior quantidade.

Meu pai me ensinou outra lição: nunca é tarde para tentar. Quase chegando aos 50 anos passou no Mestrado da UFRGS. Depois foi aprovado num concurso federal e trocou Alegrete por Porto Alegre. Seguem tendo uma vida sem excessos. Dão valor as coisas boas da vida como conhecer novos lugares

Meus pais ascenderam economicamente. Hoje se dão ao luxo de viajar duas vezes por ano. Em janeiro vão trocar o calor senegalesco de Porto Alegre pelos países perto do Senegal. Vão dar uma banda no Norte da África e Sul da Europa. Mérito de quem ensinou milhares de adolescentes ao longo da vida. Quem sabe, inspirados pelas belezas das Ilhas Canárias, não produzam mais um herdeiro em outubro. Brincadeira: minha mãe já se aposentou nessa matéria. Ah, é bom lembrar que nem eu, nem a Flávia nascemos em outubro.

As últimas duas crias de outubro nasceram nos anos 2000.

Primeiro a Raquel. Ela é filha do meu tio Felipe, irmão da mãe. A minha prima nasceu no dia 29 de outubro de 2004
Para meu orgulho, o Felipe e a Simone, esposa dele, escolheram esta pequena pessoa para ser padrinho da Raquel.

Apesar de nos vermos pouco, ela mora em Alegrete, a Raquel é uma das poucas pessoas que consegue amolecer o coração deste velho ranzinza. Até (arghh) McDonald's eu como só pq é o lanche favorito dela – a Ângela tem uma boa parcela de “culpa” tb.

Desde quando ela era pequenininha rolou uma cumplicidade. Não tinha esse papo de dindo e afilhada, a gente se dava bem independente dos laços familiares.

A Raquel é engraçada e implicante que nem eu. A futura bailarina, não perdoa ninguém. Apesar da pouca idade, sempre tem uma piada pronta. Eu fico perplexo com tamanha criatividade e espontaneidade.

E no último dia 21, completou um ano a Laura, a minha sobrinha. Uma criança muda os teus valores e o significado do que importa mesmo na vida.

Foi uma emoção indescritível a primeira vez que ela ficou no meu colo sem chorar. Ou quando retribuiu um sorriso. Parece que o tempo não anda. Quando lembro da imagem vem um sorriso sem motivo...em qualquer lugar.

A Laura recém iniciou a escrever as suas histórias. Quem sabe eu não volte daqui a uns trinta anos (ok, vinte. pq não vou viver tanto depois de me empanturrar a infância inteira de bolachinha recheada) pra contra com mais detalhes a vida dela.
Um salve ao mês de outubro. Um salve ao mês de janeiro!!

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Quem acredita na Globo Mau?


A ESPN investiu mais forte do que nunca nas transmissões da NFL. Vão ser transmitidas mais de 100 partidas da temporada do Futebol Americano.

Curiosamente, hoje o programa Redação SPORTV abriu o link com os Estados Unidos falando exclusivamente de um documentário que aborda os riscos do esporte e como a NFL ignora a relações entre o futebol americano e danos cerebrais em ex-atletas.

Minutos depois o apresentador do programa, o jornalista André Rizek, leu um email de um telespectador. Mais ou menos a mensagem questionava o fato do Redação não apontar os mesmos risco em esportes como boxe e UFC, que fazem parte da grade da emissora de TV a Cabo da Rede Globo.

Rizek disse que não tratava-se de demonizar o esporte e reiterou que inúmeras vezes falou-se também dos riscos dos esportes de luta.

Porém, com um histórico pra lá de nefasto, como acreditar que a emissora carioca não ressaltou o documentário apenas pelo caráter da disputa comercial, deixando, mais uma vez, o interesse público de lado.

A Globo, em 2012, destinava poucos minutos da sua programação para destacar os Jogos Olímpicos de Londres. Parecia que a maior competição do Planeta tinha virado uma espécie de Jogos Abertos do Interior, torneio tradicional de São Paulo.

A mesma emissora já transmitiu eventos em reprise como se fosse ao vivo e costuma ignorar grandes competições quando não detém os direitos de transmissão.

Um histórico que faz até caras como eu, que odeiam Teorias da Conspiração, ficar com um pé atrás até mesmo numa simples matéria...

sexta-feira, 12 de julho de 2013

O infortúnio de Douglas

Douglas tinha 21 anos e uma só paixão: o Botafogo. Mas a paixão não era nem um pouco correspondida. Desde o exato ano do seu nascimento, 1968, o Glorioso nunca mais tinha conquistado uma taça.

Entretanto o amor de Douglas era incondicional. Fizesse chuva ou sol, lá estava ele incentivando os jogadores alvinegros.

O ano de 1989 parecia ser igual aos outros. No turno do campeonato carioca o time quase chegou... quase. O returno estava indo pelo mesmo caminho. Tomava uma roda do Flamengo de Zico, Leonardo e Bebeto. O placar apontava 3x1 na metade do segundo tempo e o quarto gol parecia questão de minutos, mas dois gols no final, o ultimo do volante Vitor, transformam uma provável goleada num empate heróico

Na geral do Maracã, Douglas chora ajoelhado ao lado dos seus primos Paulo Valentim e Quarentinha (o nome dos dois guris foi uma homenagem a dois grandes atacantes da década de 50).

Os três vão pra casa sorrindo e cantando a plenos pulmões:

Botafogo, Botafogo,
Campeão desde 1910
Foste herói em cada jogo
Botafogo
Por isso é que tu és
E hás de ser
Nosso imenso prazer
tradições,
Aos milhões tens também
Tu és o Glorioso
Não podes perder,
Perder pra ninguém
Noutros esportes
Tua fibra está presente
Honrando as cores
Do Brasil de nossa gente
Na estrada dos louros,
um facho de luz
Tua estrela solitária
Te conduz
Botafogo!

O final dessa primeira parte da história não poderia ser mais feliz: Botafogo conquistou o campeonato estadual de 1989. Na primeira partida da decisão contra o Flamengo, empate em 0 a 0, mas na segunda partida, o Botafogo consegue vencer o Flamengo por 1 a 0 com gol do atacante Maurício. No estádio Douglas delirava de emoção. A corrida desenfreada do ponta direita foi acompanhada com lágrimas por nosso herói.

O Fogão era campeão carioca, mas isso era apenas um detalhe na vida dele. Na festa da vitória, Douglas conheceu àquela que seria o primeiro e único amor da sua vida. A bela Mariana, sobrinha neta do mítico lateral esquerdo Nilton Santos, chamado de a Enciclopédia do Futebol pelo cronista Nelson Rodrigues.

Foi amor a primeira vista. Mariana e o nosso herói beijaram-se ao som do gritos de guerra das organizadas alvinegras. Ali nascia um amor, mas, mal sabia Douglas, que custaria outro.

Mariana e Douglas viveram três anos de sonhos. Viram juntos o Fogão ser bicampeão carioca em 1990. Transaram 812 horas ininterruptas para comemorar a façanha.

Douglas era felicidade pura. E para melhorar o alvinegro passava nas quartas por Bragantino, Corinthians e Cruzeiro e estava na final do campeonato brasileiro de 1992.

O Botafogo precisava de apenas dois empates para ser campeão brasileiro pela primeira vez. O adversário era o Flamengo, adversário que trazia enormes alegrias aos botafoguenses. Como esquecer os dois gols de Garrincha na final de 62, ou o gol de Maurício em Zé Carlos que encerrou o jejum Botafoguense.

Douglas avistava dias lindos no horizonte próximo. Doce engano...

Faltava meia hora para o clássico. A festa era linda no Maracanã. De um lado, os flamenguistas com sua faixa: somos todos menos alguns. Do outro lado, a fanática e sofrida torcida do Botafogo. Dia inesquecível aquele 12 de julho de 1992.

Nosso herói, Douglas, entretanto não olhava para o campo, nem gritava com os “irmãos” da Fúria Jovem. Seu olhar era em direção ao portão de acesso, onde já deveria a mais de hora ter cruzado Mariana.

Ele estava no lugar certo do estádio. Daquele ponto, os apaixonados Douglas e Mariana viram o Botafogo triturar seus adversários e chegar a final do campeonato brasileiro. Onde estaria Mariana?

Apita o juiz e começa a decisão. E nada da Mariana entrar no estádio. Douglas foi o único que não viu, pois olhava para o portão em vez do gramado, os que os 117 mil presentes ao campo foram testemunhas oculares. O lateral esquerdo do Flamengo, Piá, desce pelo flanco e rola na entrada da área para Júnior marcar. Festa rubro negra.

O Flamengo fez mais dois gols no primeiro tempo. Fim de jogo. Três a zero e a sorte do campeonato praticamente selada. Douglas viu pouco do jogo, pois Mariana não apareceu. Na saída, comentou com amigos preocupado sobre a ausência da amada. Um acidente, alguma morte na família inesperada?

Nada disso, mas Douglas só saberia o real motivo horas depois...

“Oi seu Agenor, desculpe incomodar, mas é que eu estou preocupado com a Mariana. Ela não apareceu no Maracanã”, questionava Douglas ao pai da moça, tentando esconder a voz de preocupação.

“Douglas, a Mariana não foi ao jogo. Ela está no quarto. Já chamo”, respondeu docemente o sogro, gaúcho de Santana do Livramento e torcedor doente do 14 de Julho.

Dez minutos e alguns gritos ao fundo depois, Mariana finalmente atendeu o nosso protagonista. “Douglas, gostaria de marcar contigo naquele bar em Madureira às quatro horas desta terça-feira. A gente precisa conversar”, falou seca e direta.

Douglas ainda tentou perguntar o motivo da ausência dela no jogo e a derrota desastrosa, mas nada a impediu de desligar prontamente o telefone.

Na hora e no dia marcado, lá estava Douglas, com os nervos a flor da pele, a espera do seu amor. Mariana não economizou palavras ou se estendeu nas explicações. Foi direta ao ponto e da sua voz saíram palavras cruéis que marcariam a carne e a alma do nosso herói para sempre.

“Estou apaixonada pelo Francisco e ele por mim”, bradou Mariana.

Douglas balbuciou apenas, mas o Francisco é...e ficou sem palavras e assim permaneceu durante quase três anos, em um estado catatônico. Qual o motivo? Quem é Francisco?

No parágrafo acima, Douglas ficava perplexo quando soube da paixão de Renata por Francisco.

Para entender melhor essa história, meus três leitores, vamos voltar no tempo, mais precisamente para o final dos anos 50 em Santana do Livramento. Um jovem Agenor dava a notícia aos seus pais: iria cursar engenharia em Porto Alegre. Em 1968 pintou a chance (já estava formado) de ir trabalhar na Petrobrás no Rio de Janeiro.

No Rio, em 1970, conheceu uma menina e apaixonou-se perdidamente por ela. O nome dela Miriam. Linda dos pés a cabeça. Sobrinha do lendário lateral esquerdo do Botafogo, Nilton Santos, a moça também se encantou por aquele rapaz bem afeiçoado, com gostos refinados e uma carreira promissora.

Dois anos depois nascia desse amor Mariana. Linda como uma Helena. Inteligente como a imperatriz Catarina da Rússia. Ousada como uma Mata Hari.Para desespero do pai, desde pequena, em função dos parentes cariocas, revelou sua paixão pelas cores alvinegras do Botafogo.

Quando tinha dez anos Mariana acompanhou os pais a uma festa da empresa. Era a primeira vez que a família de seu Agenor tinha contato com um jovem loiro e bronzeado de sol, um verdadeiro Menino do Rio. Recém-contratado pela empresa, Francisco exalava beleza por cada parte do jovem corpo prestes a entrar na vigésima quinta primavera.

Foi amor à primeira vista...Francisco e...Agenor estavam completamente apaixonados desde primeira cruzada de olhares. Por um tempo, Agenor negou o sentimento, mas depois se entregou de corpo e alma ao jovem “Apolo”.

Dona Mirian entendeu, mas não suportou os olhares de desaprovação da sociedade carioca. Foi para e Europa e permaneceu por lá durante anos. Mariana ficou sob a tutela do pai e de Franscico. Agora eles formavam uma família diferente, mas feliz. Copacabana, bairro onde residiam, era testemunha ocular de tanta felicidade.

Infelizmente, tal como numa peça Rodrigueana, a enteada se apaixonou pelo padrasto e foi correspondida. Por infortúnio, nosso herói, Douglas, estava no meio deste turbilhão.

Como relatamos no final do último capítulo, o impacto da notícia deixou Douglas catatônico.
Ele levaria três anos para se recuperar...continua

Epílogo:
Seu Agenor não suportou a dupla traição e matou-se enforcado com a mangueira do chuveiro. Seu corpo foi cremado e as cinzas atiradas no gramado do estádio do 14 de Julho.

A dor na consciência pela morte do pai foi demais para Mariana. Ela perdeu totalmente a razão e hoje vive em uma casa para doentes mentais em Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro. A mãe à visita com frequência. Os funcionários da casa me revelaram que Dona Miriam fica olhando para a filha com um sorriso enorme no rosto e sempre profere a mesma frase: você me vingou, filha adorada.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Somos tão velhos



Não resisti a tentação mercantilista e fui ver Somos Tão Jovens. O Filme retrata o início da trajetória musical do Renato Russo. Na verdade enfrentei um dilema até a última hora em frente ao Guion Center, pois queria ver também o filme francês Depois de Maio, mas acabei cedendo aos impulsos do menino que adorava rock (e ainda adora) nacional dos anos 80.

As músicas salvam o filme. Ainda mais que são, na minha modesta opinião, as grandes composições criadas por Renato. Apesar da Legião estar longe das minhas bandas favoritas da época (este lugar que não tem nenhuma honra ou importância pertencem ao Camisa de Vênus, Titãs e Ultraje a Rigor), vejo o Renato Russo como um gênio. As músicas do Legião 1 e do terceiro álbum – Que Pais É Este – me faziam sair na rua com bandeiras vermelhas em busca da transformação social tão sonhada pela nossa geração. Aqui um mega parênteses: Vejo o Renato também como um cara sem vaidades exageradas ou narcisismo incorrigível, como meu ídolo máximo Cazuza. Até achava ele um cara altruísta – sempre lembro dele num disk MTV comemorando, apesar do gestual performático via se verdade em cada grito exagerado do cantor, o fato dos Raimundos estarem no topo das ligações do programa. Fecha mega parênteses.

E falta exatamente isso no filme. Apesar de abordar na maioria do tempo a fase punk do cantor e depois sua atitude solitária e reflexiva sobre a música e a sociedade onde vivia, a narrativa nos leva a crer que aqueles garotos classe média de Brasília só queriam “invadir uma festa ou chocar a sociedade burguesa da época em momentos pontuais” e não estavam nem aí para outras coisas. Como se o punk fosse uma moda passageira e não um atitude em relação a vida, independente do som que tu escuta.

O Renato era um ser político. Suas letras não eram carregadas de críticas, apenas em função da sua incomparável leitura dos acontecimentos e das pessoas ao seu redor. Essa leitura exatamente existia por que o artista tinha uma alma contestadora. Ele não lia apenas a sociedade como um observador antropológico, ele a queria mudar como um cantor de rock influente e engajado.

O filme é careta também quando trata da sexualidade do cantor. Na verdade ele sobrevive de dois aspectos: das músicas e da parte legal que é reconhecer os personagens. Mas o resto deixa a desejar. A emoção se restringe somente as canções, o que inaceitável quando se faz um filme sobre um cara que era intenso a maior parte do tempo, até mesmo quando mergulhava na mais profundas das viagens internas.

Somos Tão Jovens é feito para os atuais jovens e suas práticas bundamolescas, onde o máximo de contestação é criticar a escola que não deixa fazer guerra de bixiguinha no final do ano. Um cara que cantou para uma geração que tentou ao menos mudar o país merecia um filme melhor, bem melhor!!

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Incendiando o vestiário

Que Centro Sul brasileiro que nada, que torneio de liso de Caxias contra Porto Alegre, que momentos decisivos de torneios internos: o futebol de mesa da regra brasileira do Rio Grande do Sul só respira Estadual de Equipes. Falta um mísero mês para a Riograndina entrar para a história e conquistar o seu terceiro título consecutivo nos cavados.

Para piorar, a situação das outras associações: os caras jogam em casa, com apoio da gigantesca e fanática torcida. Se fora eles brincaram (ganharam invicto em 2011 no Círculo Militar e só perderam um jogo ano passado em Canguçu) o que vão aprontar atuando nos seu nada misericordioso domínio.

Reza a lenda que o Silvio já mandou a logo do troféu para o Maciel. A imagem mostra os botonistas da ARFM fumando charutos cubanos no corredor de um hospital enquanto olham pra dentro de um berçário cheio de caminhas com nome das outras entidades gaúchas.

Essa imagem foi por email e, segundo dizem, foi interceptada por agentes secretos de Viamão. A logo causou revolta nas outras entidades que juraram vingança e querem mostrar na mesa que não são filhos dos riograndinos.

A fidalguia pelotense foi a primeira a reagir. Os botonistas da delicada cidade prometeram treinar muito. Alguns destemperados chegaram ao extremo da insanidade ao afirmarem que não vão na sauna com seus “amigos” para ficar disparando petardos contra goleiros imóveis durante o mês de junho.

Apesar de pagar apenas 17 por 1 na casa de apostas de Camaquã, a Academia é a associação com mais chance de tirar o título das mãos dos atletas da entidade localizada na Noiva do Mar. Atual vice-campeã, pode viajar para Rio Grande sem sua maior estrela: Marcelo Vinhas. O técnico Coxa Branca já deu declarações a imprensa que não jogaria mais cavado. Mesmo assim contam com um grupo estelar. Acostumados a ganhar, foram os últimos que tiveram a petulância de desbancar a anfitriã deste ano, ao vencer o torneio em 2010.

Pedrinho, com sua inteligência de dar inveja ao Einstein, prometeu uma estratégia perfeita para vencer o embate. E calar os mais de 50 mil presentes no local da competição. Ele já apelidou o triunfo de “O Riograndinazo”.

Pedrinho, sempre provocador, trará de sua turnê 11 mil pela Europa um souvenir para distribuir a atletas da Riograndina. O regalo vem sendo mantido em segredo maçônico. Nem os agentes de Viamão, comandados por Fábio Di Leone, descobriram o conteúdo da caixa.
Entretanto, informantes ligados a Associação de São Lourenço viram o astuto professor passar em lojas holandesas e depois tomar o rumo de um país na região central da África. A ideia, segundo esses investigadores, é usar o fanatismo por futebol dos jogadores da ARFM como uma arma para desestabilizar o imbatível escrete riograndino.

Perto da sede da Academia, fica o local de jogos dos craques da APFM, ou Pelotense como o Aldyr prefere. Sua escalação é uma incógnita, pois os treinos têm sido com portões fechados – a última vez que o blog foi atualizado o Fosca jogava na categoria Junior. A certeza é que o Cepel será o comandante do time. Em 2012, a APFM ficou a centímetros de vencer a Riograndina na semi. Desta vez nossos heróis que vestem laranja (o bom gosto dos pelotenses me impressiona) prometem não vacilar na hora H.

Gênio das palavras, Aldyr terá a função de montar as estratégias. “O furo do time é o Alex”, teria disparado numa entrevista polêmica para o jornal Diário de Pelotas. Outra motivação do esquadrão (péssimas línguas apelidaram os times de Pelotas de Esquadrão Purpurina – sacanagem) é vingar a derrota do Brasil para o Leão da Linha do Parque na decisão do primeiro turno da Divisão de Acesso.

“Apesar de votarmos nos candidatos do PP pra prefeito, somos filhos de uma cidade aristocrática, secular e berço da intelectualidade iluminista e positivista do Rio Grande. Chegou a hora de pegar o rebenque e expulsar esta portuguesada do nosso amado território brasileiro”, declarou Aldyr na mesma entrevista.

A APFM amarga um incômodo jejum: não vence este torneio desde 2004, porém já tiveram a honra de erguer o troféu em quatro oportunidades.

Na próxima coluna falaremos sobre as outras duas entidades de Pelotas e o inimigo que mora ao lado: a Afumerg

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Felicidade foi se embora...

Ontem, fomos tomar umas cevas no bar Brechó do Futebol. Na caravana do trago estava eu e três colegas de pós-graduação, o Rodrigo, o Flávio e o Eduardo. O assunto girou em torno da eliminação do Grêmio na Libertadores. Antes disso, no entanto, um dos guris, já na casa dos 30 anos, falou que queria sair de casa – ele mora com a mãe e o irmão. A informação veio acrescida de outra informação do tipo não estou mais na idade de morar com a minha mãe.

Não questiono o que ele disse. Talvez tenha apenas usado um lugar comum para resumir um sentimento extremamente complexo e com argumentos mais plausíveis. Talvez agora, meus queridos dois leitores, você esteja se perguntado: “Mais plausível do que uma pessoa na casa dos 30 anos morar com a mãe? Isso é um absurdo”. Sinceramente, não acho.

Hoje o mundo luta com vigor na defesa dos direitos individuais. Finalmente, duas pessoas do mesmo sexo podem constituir união estável. Usei este exemplo para comemorar o nosso avanço como sociedade. É inconcebível castrar um desejo de alguém motivado apenas por sua orientação sexual.

Entretanto, na contramão deste movimento estamos criando uma ditadura da felicidade, do bem-estar ou da qualidade de vida. Outdoors espalhados na cidade te “ensinam” que qualidade de vida é morar em um condomínio fechado com N opções de lazer. Segurança aliada a um convívio harmonioso com a natureza.

Ter um carro, de preferência do ano, é sinônimo de sucesso profissional. Ter um apartamento num bairro bom idem. Outras identificações com uma boa colocação no mercado de trabalho é viajar, frequentar os chamados bons restaurantes ou bares, que podem ser tanto ou da moda ou os da galera alternativa, comprar tudo o que deseja numa loja e por aí vai.

Quem não se enquadra nessa descrição é taxado de perdedor. Pouco importa se o sujeito adora andar de bicicleta ou a pé, se vê no transporte público a solução para os engarrafamentos da cidade. Ele precisa ter um carro! O carro significa liberdade também. É o ir e vir a qualquer momento para qualquer lugar. Sair a pé de uma festa na noite ou pegar a sua bicicleta presa a um poste ou árvore é uma atitude derrotista.

Morar com os pais a uma certa altura da vida também. Coisa de loser. Vai o cara ou a garota tentar explicar que gosta de morar com a família mesmo ultrapassando a casa dos 30, 40 ou 50 anos. “Mentira, é só uma desculpa para o fato de não ter grana pra morar sozinho”. A sentença é cruel.

Hoje em dia 75% do papo dos meus amigos se restringem a viagens. É legal claro compartilhar experiências, mas na boa: encheu o saco. Eu até evito sair às vezes pq o papo sempre acaba se resumindo a isso (depois das férias então nem se fala). É quase uma competição velada. Quem não tem grana pra visitar todos os lugares acaba, inconscientemente ou bem conscientemente, se sentindo menor. Ainda mais que fotos de viagens são o primeiro impacto nas mídias sociais para ver se aquela pessoa vale a pena no caso de um interesse de uma relação.

Muitas destas portas são abertas em função da sua aparência estética, da sua inteligência acima da média ou fruto da sua performance esportiva ou criatividade cultural.

Se você não se enquadra em nenhum dos exemplos acima: sinto muito. A felicidade deve ter ser negada. É o famoso tá rindo do quê? Namora uma pessoa feia, não tem grana pra nada e ainda é feliz. Aí vem o tradicional: “As pessoas ignorantes são mais felizes. Elas não sabem o que não estão aproveitando no mundo”.

Felicidade deixou de ser algo abstrato. Virou um conceito. Fulano é muito feliz, pois tem um super apê, um puta carro e viaja o mudo inteiro, pratica esportes radicais. Claro que dinheiro ou domínio intelectual e cultural são geradores de felicidade, mas tantas outras coisas geram felicidade, independente do seu valor social.

O dia mais feliz da minha vida foi quando finalmente eu esporrei. Ver aquela gota de sêmen cair no chão do banheiro do apartamento dos meus pais foi a melhor sensação do mundo. Eu tinha de doze pra treze anos e o máximo de sucesso até ali na masturbação tinha sido a cabeça do pau (desculpem o termo britânico) ficar com um líquido branco, mas sem ejaculação. Todo o menino passou por isso e duvido que alguém tenha esquecido deste momento. A primeira transa então nem se fala.

Raramente, o melhor sexo é com a pessoa mais bonita que você transou. Existe um mundo repleto de bem-estar longe, mas bem longe das convenções sociais. Uma mulher não precisa ter filhos para se sentir completa. Um homem não precisa ser o provedor da casa para ser alguém. Um adolescente é bem mais que uma roupa ou a carteira dos seus pais. O meu amigo não precisa sair de casa para ser uma cara legal, aprazível e que eu gasto tranquilamente horas a bater um bom papo num bar.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Na trave



O Geraldo Santana ficou um degrau abaixo apenas dos troféus do Campeonato de Veteranos 2013. Gothe e Pirênio eram nossos dois jogadores e não decepcionaram. A competição aconteceu na Franzem e contou com 24 senhores (se bem que têm uns ali que eu desconfio que estão mais pra senhoritas). Além de jogar, os botonistas recebiam um carinho extra. Caju, gentil como sempre, fazia um afago no escroto de todos os competidores. Reza a lenda, que ele demorou quatro horas fazendo mimo no Pirênio.

Bem chega de falar de sacanagem e vamos falar sério: Na primeira fase os jogadores foram divididos em grupos de 4, passando dois para a próxima fase. Gothe deixou para trás o ex-campeão estadual especial Ronir e classificou-se junto com o Breno. Pirênio venceu de virada Obereci e também atingiu a segunda fase da competição ao lado de J. Cláudio.

Depois os 12 finalistas foram divididos em quatro grupos de três. Gothe e Pirênio passaram em segundo lugar no seu grupo. Infelizmente, ambos partiram em desvantagem para o primeiro confronto mata (quartas de final). Gothe empatou em 0x0 com o Burgel, jogador da associação Dona da Casa, e caiu fora. Não falei com ele ainda pra saber se teve oportunidade de vencer o embate. Gothe, inclusive, saiu invicto do torneio.

Pirênio foi roubado no confronto com Nilmar. Hoje, lá no Geraldo Santana, o nosso veterano atleta disparou contra a arbitragem do jogo que validou CINCO gols ilegais do botonista do Círculo Militar. Pirênio ressaltou que o placar moral foi 1x0 pra ele e não os 5x1 que o placar anotava ao final da partida.

O Campeão do torneio foi o Umberto de Santa Vitória do Palmar.

Entre os punheteiros, não deu para os irmão José Pedro e João Vitor do Geraldo Santana. Mas os dois meninos ainda estão começando e tem muita lenha pra queimar. Acredito nos dois, pois ambos possuem potencial. Kevin do Grêmio Náutico União (achei que os caras nem existiam mais) levou o caneco com todos os méritos.